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Para um artigo sobre a Criatividade

criatividade: quando o artista é um pequeno deus.

Para um artigo sobre a Criatividade

 

Podemos interpretar criatividade como o encontro da experiência sensível com a expressão linguística. É, simplificando, a organização racional das ideias a fim de alcançar um determinado resultado estético.

Quantos pais e professores só dizem: te acomoda, guri! Fica quieto, guri! Sossega, guri! Quantos ao ouvirem as chatas perguntas de crianças são capazes de estimulá-las na busca de respostas criativas ou quantos simplesmente mandam-nas calar, porque desejam terminar a leitura do jornal ou assistir a tevê, com noticiários sobre a violência?

Assim se mata na criança a criatividade. Adultos sérios foram capazes, quando crianças, de inventar brinquedos, fantasias, histórias, criar músicas, sonhar acordado. Fazer fofocas e mentir pode ser o início de um escritor. Para castrá-lo, basta reprimir a imaginação criadora. E a criatividade da criança pode tomar diferentes caminhos, pois a criatividade literária não é muito diferente da científica nem da comercial. Uma e outra são frutos da curiosidade que pergunta por quê? E da vontade de encontrar respostas.

Estimula-se a criatividade ou se a mata.

Rollo May[1] diz que expressamos a nossa existência criando. A criatividade é a sequência natural do ser. 8

Criar é, no fundo, buscar alguma esperança no mundo. É dizer que ainda é possível fazer alguma coisa. E tentar fazê-la.

Ele ainda diz mais: a coragem criativa é a descoberta de novas formas, novos símbolos, novos padrões segundo os quais uma nova sociedade pode ser construída. 19

A arte é uma das formas de materializar a criatividade, os signos que criamos para dizer que há indignação e esperança diante da realidade. O artista é uma espécie de sacerdote de uma religião cujos deuses são a sensibilidade e a beleza. Esta religião não promete um céu futuro, mas tenta desvendar caminhos para um céu estético, porém íntimo, onde cada um pode encontrar o seu a partir de uma mesma leitura..

O artista busca o que James Joyce pôs na boca de sua personagem: Bem-vinda sejas, ó Vida. Vou, pela milionésima vez, ao encontro da realidade da experiência, para moldar na forja da minha alma a consciência ainda não criada da minha raça.

Certa rebeldia contra a rotina da vida provoca no artista o desejo quase absoluto de criar outro mundo, mais de acordo com sua sensibilidade. Um mundo quase sempre apenas intuído e ainda não organizado. É a arte essa tentativa de organizar um mundo idealizado.

Criatividade é buscar caminhos no labirinto da existência.

Se o artista criador parece mais um neurótico no mundo, na realidade, ele pode ser neurótico pela consciência de querer algo quase impossível e pela obsessão em buscá-lo. No entanto, como neurótico, ele é o seu próprio médico ao praticar a arte da cura que é a própria arte que criadora. Fazer é a terapia do criador. O ato criativo talvez seja, como diz Rollo May, a representação do mais alto grau de saúde emocional. 39

O texto é fruição para o leitor e realização para o artista.

Ideias todos podem ter e a toda hora. Força de vontade é que é a questão. Sem se pôr a materializá-las, todas as ideias são vãs, quimeras, inúteis.

Conheci certa jovem que se dizia escritora. Perguntei-lhe como estavam seus trabalhos. Respondeu-me que tinha mais de duzentos contos começados. Tornei a perguntar: e prontos. Disse-me, desenxabida, que não tinha saco para o acabamento e revisão. Compreendi, então, porque nada dava certo em sua vida e porque era tão infeliz.

A criatividade é o encontro do ser humano intensamente consciente com o seu mundo. Diz Rollo May, 52. Enquanto Jung anuncia que a Arte é o caminho para a realização da individuação, que o encontro pleno do Ego, com seu Inconsciente Profundo. Creio, talvez, que a criatividade é a busca de uma possível oportunidade desse encontro.

Uma das grandes dores do artista é a aparente irreconciliabilidade entre a idealização do criador com a realização da obra imaginada. E esta dor é que o alimenta na busca permanente de algo novo, ainda mais criativo, mais bem acabado, o que jamais acontecerá, pois cada degrau alcançado representa a possibilidade de um outro degrau superior a ser alcançado. E, como Sísifo, ele continuará buscando esse novo degrau, até o esgotamento que nunca se dará.

A paixão do artista pela ideia criada é que o move, mesmo diante da miserável remuneração, das dificuldades cotidianas, da incompreensão humana, na busca de sua plenitude. E a sua paixão é o seu alimento. O conflito do artista é superar a mediocridade da vida minúscula, que ele se recusa aceitar.

Heráclito: O conflito é o rei e o pai de todos. Conflito pressupõe limite, e a luta contra os limites é na realidade a fonte do produto criado.

O conflito criativo surge do choque entre a ideia concebida e os limites do artista. A obra de arte é o resultado nem sempre bem-sucedido da criação artística com os limites do criador.

Dar forma à ideia. Essa exige imaginação e perseverança.

A imaginação permite revestir a velha ideia com novas cores, tornando quase original o que já foi utilizado mil vezes.

Criar, talvez, seja apenas buscar respostas. Não tão simplesmente qualquer resposta. Mas uma especial que se sonha, que se idealiza, que se busca com trabalho e engenhosidade.

Criatividade pode ser descrita como sendo um abandono de todas as certezas. O psicólogo Abraham Maslow, citado por Comparato, diz que as pessoas criativas são exatamente aquelas que enfrentam essas incertezas.

Mas devemos a Hegel a implantação definitiva da distinção entre “imaginação” e “fantasia”. Ambas são, para ele, determinações da inteligência: mas a inteligência como imaginação é simplesmente reprodutiva; como fantasia é, ao contrário, criativa[2].137

A criatividade é realmente condição necessária da vida cotidiana...

Criatividade é uma resposta do homem ao conflito de viver.

Criatividade não é uma propriedade exclusiva das artes.

D.H. Lawrence, citado por Henry Miller: Mas o ser mais poderoso é aquele que caminha em direção à flor ainda desconhecida! E mais adiante: O poema é o sonho feito carne, num duplo sentido: como obra de arte e como vida, que é uma obra de arte. Quando o homem se torna inteiramente consciente de sua capacidade, de seu papel, de seu destino, ele é um artista e cessa de lutar com a realidade. (...) Vive integralmente o seu sonho do Paraíso. Transmuta sua experiência real de vida em equações espirituais. Despreza o alfabeto normal, que produz no máximo uma gramática do pensamento, e adota o símbolo, a metáfora, o ideograma. Escreve chinês. Cria um mundo impossível com uma linguagem incompreensível, uma mentira que encanta e escraviza os homens. Não é que seja incapaz de viver. Pelo contrário, seu gosto pela vida é tão forte, tão voraz que o força a se matar repetidamente. Morre muitas vezes para poder viver inúmeras vidas. Desta maneira sacia sua vingança da vida e exerce o seu poder sobre homens. Cria a lenda dele mesmo, a mentira em que se afirma como herói e deus, a mentira na qual triunfa sobre a vida. (...) Ele é coerente em sua ideia: a vida tem um significado simbólico. O que vale dizer que a vida e a arte são uma coisa só.

Na pessoa do artista resume-se toda a evolução histórica do homem. Sua obra é uma grande metáfora, que revela através da imagem e do símbolo todo o ciclo do desenvolvimento cultural em que o homem passou de ser primitivo a ser civilizado e entediado.

As primeiras grandes histórias da humanidade sobreviveram pela Arte, de contar histórias, ou desenhar nas paredes de Altamira.

 

Disse Antônio Skármeta a Mempo Giardinelli: O que mais me interessa na literatura é a comunicação. É uma questão de temperamento. Alegra-me o fato de estar junto dos outros, e o que me interessa é estabelecer-me, através da palavra, neste mundo real[3]. 64

A civilização é uma metáfora do artista.

Ah, e sabe-se mais dos grandes artistas do passado do que se conhece dos políticos que governaram civilizações. Enquanto os práticos morrem em sua morte, os artistas renascem para a eternidade com a dama negra, dançando e cantando, como fez o poeta Hafiz, no século 14:

 

O Deus que conhece apenas 3 palavras...

 

Toda criança conhece Deus,

Mas não o Deus dos nomes,

Não o Deus dos nãos,

Mas o Deus que conhece apenas 3 palavras

E continua repetindo-as, dizendo:

Venham dançar comigo...

Venham dançar comigo...

Venham dançar comigo...

 

[1] MAY, Rollo. A coragem de criar. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1982, 8.ª edição, p.

[2] GIANNI Rodari. Gramática da fantasia, São Paulo: Summus Editorial, 1982, p. 137.

[3] GIARDINELLI, Mempo, in Assim se escreve um conto, Porto Alegre: Editora Mercado Aberto, 1994, p. 64.


PUBLICADO EM: 03/SET/2016

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