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Como ler as obras de Walmor Santos

Anjos e demônios, o profano e o sagrado na obra de Walmor Santos

Comunhão de contrários, por Miguel Sanches Neto

 

Walmor Santos, escritor radicado em Porto Alegre, apresenta-nos a sua antologia pessoal. De imediato, já na leitura de seu primeiro conto, percebemos que se trata de um autor com seriedade e dedicação profissional, o que é uma agradável surpresa numa tradição literária marcada pelos improvisos de última hora.

O que caracteriza esta obra é o vínculo com o discurso religioso, vínculo que ultrapassa o nível das citações bíblicas, fazendo-se presente na própria condição dos personagens. Tal religiosidade, no entanto, pouco tem a ver com uma visão convencional do sagrado, porque o que move o autor é um desejo de expressar o elemento religioso encarnado nas trajetórias de personagens que se colocam sempre além das verdades aceitas. É no exercício da condição humana que eles encontram um caminho para o sublime, e não na renúncia a ela. Esta mudança de perspectiva tira dos contos qualquer semelhança com os estereótipos do discurso sagrado, revelando um autor que encontrou uma forma de intervir numa linguagem petrificada para implodi-la com a introdução de novas significações. Não se trata, portanto, de uma negação revoltada do cânon bíblico, o que seria muito cômodo, mas de uma glosa paralela que, ao negar as oposições sagrado versus profano e humano versus divino, desarma a moralidade que se agregou ao religioso.

Um conto que expressa bem esta caraterística das narrativas de Walmor Santos é o “Além do medo e do pecado”. Um bêbado maltrapilho, que mora nas calçadas da cidade, encontra uma freira que se afeiçoa a ele. Os dois representam, em diversas dimensões, antíteses perfeitas. Ela vive limpa, de corpo e alma, num lugar fechado que, simbolizando um rompimento com o terreno, é o elo com o divino. Em outra latitude, sujo e bêbado, o mendigo é a imagem de que se encontra sintonizado com o espaço aberto, com os pecados da carne, com a condição terrena (daí a importância do fato de dormir no chão, em contato com o baixo). Recolhido ao convento, onde desempenha a função de jardineiro, ele conhece uma nova dimensão que o leva a ligar-se a Deus. Isso se efetiva através do contato sensual com a freira que o recolheu. Esta, que desempenha o papel de passagem para o espaço celeste, toca o céu carnal de sua boca (lembremo-nos de que o primeiro livro de Walmor Santos chama-se justamente: O paraíso é no céu de sua boca). Neste pequeno ato erótico fica delimitada a comunhão entre o celestial e o carnal, já não mais em estado antagônico.

Abri a boca com o ímpeto de pecado confesso, mas ela pôs seus abençoados dedos sobre meus lábios, ordenando silêncio. Ao tocá-los, eu flutuava além do medo, crendo firmemente que o céu existia. E nada mais tendo a dizer que ela não adivinhasse, abri a boca e deslizei minha língua sobre seu dedo, umedecendo-o e experimentando o doce sabor da carne perfumada. Ela permanecia de olhos fechados, de corpo tão leve que poderia ascender pelo vitral multicor, entre as luzes. Então voltou-se para o centro do altar, dando-me as costas, como quem deseja afastar-se do diabo mas não tem forças. Prosseguia com o dedo a bulir o céu da minha boca, tão cariciosa que amei verdadeiramente a Deus, para sempre, naquele anjo ali encarnado.

Não existe qualquer resquício de sentimento de profanação do espaço duplamente sagrado (eles se encontram na igreja do convento) ou de negação de Deus. Muito pelo contrário, o contato sensual entre os dois é um caminho de iluminação. A delicadeza com que o autor narra as cenas eróticas fornece-lhe um estatuto poético que elide o caráter negativo e o sentido transgressivo do ato. Há uma carnalização do divino e uma divinização do carnal.

Depois de se encontrarem de forma completa, ele abandona o convento e aguarda, na calçada, a fuga da freira. Assim acaba o conto. Ela não fugirá por sentir-se pecadora, mas para conhecer o outro lado da experiência humana, tornando plena a junção das duas esferas. Conciliam-se assim os extremos, desfazendo-se a fronteira entre os dois espaços. É a hora de a freira experimentar as delícias e as misérias da rua.

Um idêntico movimento de quebra da oposição entre o carnal e o divino pode ser encontrado em um texto que se intitula “Alquimia para transportar demônios ao céu”. Mais forte do que o anterior, este conto trata de uma elevação, perante si mesma, da moral de uma prostituta que, durante a sua ronda noturna, encontra um padre delirando, com muita febre. A sua situação revela que ele está possuído por alguma tormenta, numa luta contra seus demônios interiores. Num primeiro momento, ela se sente culpada diante do homem santo. Mas, na verdade, ele vai ser o instrumento que a conduzirá em uma viagem de retorno à sua infância, na qual resgata a dignidade e a inocência. Como o padre desmaia, ela o carrega até o seu quarto de encontros para tratar dele. Em determinado momento, num transe febril, o padre a confunde com a sua mãe e começa a sugar-lhe o seio. Desempenhando este papel materno, a meretriz se purifica, livrando-se de sua condição de pecadora. O encontro erótico, que se torna inevitável, livra o padre de suas tormentas, restabelecendo-lhe a saúde e a normalidade. O eixo do conto é o encontro do empíreo (tanto por parte da prostituta quanto do padre) através da comunhão carnal entre duas pessoas em posições polarizadas.

Mas é em “Nostalgia do amor ausente” que aparece uma narrativa que trata de maneira mais direta o tema da busca da unidade através da reintegração das partes distanciadas. O narrador é Lúcifer, o anjo da luz e do pecado, que pensa a sua trajetória como uma busca de Deus. O seu fim último é a comunhão com Ele: “Éramos um, e nosso amor ofendia a paz inútil dos anjos. Desde a separação nos vimos poucas vezes, mas nos buscamos sempre”. Toda a sua vida é marcada por esta nostalgia de encontrar-se com o seu contrário, recuperando assim uma unidade perdida.

Walmor Santos, autor de “Breves notas sobre o conto” (resultado de 17 anos de pesquisa sobre o gênero), embora defenda o fundo intuitivo de todo ato criativo, recusa a facilidade que é escolher um estilo específico ou mestres. Aberto para a diversidade, para a experimentação constante, assumindo-se como um estudioso das técnicas literárias, o autor, que não nos propõe um modelo, vale-se de suas leituras teóricas para poder organizar melhor o discurso, adequando-o às necessidades das histórias. Logo, negando um projeto literário ortodoxo, ele dá a ver a inteireza de sua obra que, tanto no nível temático quanto no formal, se faz canal de ligação entre os contrários.

 

E isso pratico tanto nos contos e novelas para um público mais adulto, quanto nos textos para o público infantil e juvenil, onde a ternura e certa religiosidade aparecem constantemente, porém sem se permitir literatura pedagógica, moralista, de qualidade sempre duvidável.

 


PUBLICADO EM: 01/MAR/2016

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